Pessoas corriam. O Bulevar Clichy estava cheio de carros acidentados. Entre estes carros, homens comiam outros homens. Arrancavam-lhe pedaços de carne com os dentes, desmembravam-nos e enfiavam os dedos em suas entranhas. Eram devorados.

A Noite Devorou o Mundo (La Nuit a dévoré le monde) é um livro do autor francês Pit Agarmen (pseudônimo e anagrama de Martin Page), lançado pela primeira vez em 2012, que se passa em um mundo tomado por zumbis. Tudo começa em uma noite de março em Paris, quando Antoine Verney, um escritor de romances água com açúcar (como ele mesmo se intitula), vai a uma festa no luxuoso apartamento de uma amiga, toma um belo porre e acaba dormindo na biblioteca da anfitriã.

Ao acordar no dia seguinte, ele tem não somente uma ressaca, mas também um belo choque: o apartamento está completamente vazio, não há alma viva no local, tudo está revirado e há sangue por todo lado. A única forma humana no local é um cadáver sem cabeça. Ao olhar pela janela, Verney vê homens atacando e devorando uns aos outros, e sem demora conclui que são zumbis. Sair do apartamento nessas condições não seria uma ideia muito inteligente, então ele começa a recondicionar o local para passar um tempo lá.

Ele pensa em seus pais, que moram em outra cidade, em sua ex-namorada e nos poucos amigos que tem. E assim vai vivendo os dias, intercalando momentos de pânico em meio à conformidade. Convenientemente, o prédio inteiro está livre de zumbis, e pouco a pouco o protagonista vai conquistando seu espaço: ele faz faxina, busca mantimentos e até interage com os mortos-vivos, que ora ele desumaniza, ora vê como aqueles que um dia foram seus semelhantes.

O que é seguro e belo é passado; mesmo o passado triste, minha solidão, minhas dificuldades materiais, minha adolescência: tudo isso me parece doce a partir de agora – eu era feliz e não sabia.

O livro é narrado em primeira pessoa, em forma de diário, então o leitor vai acompanhando o dia a dia de Verney em uma narrativa intimista, entrando no mundo de um autor que nunca obteve muito sucesso, que é de poucas amizades e sequer tem um grande apreço pela humanidade. E não se trata apenas da questão da sobrevivência, há todo um conflito interno, o luto pelos entes queridos (que provavelmente estão mortos), a aceitação, o tédio, a solidão e as reflexões sobre a natureza humana.

Existe um filme de 2018 baseado nessa obra. Eu cheguei a assisti-lo, mas na época não gostei, achei maçante, quase nada de ação. Já o livro foi uma experiência completamente diferente, a leitura fluiu bem demais, não só me vi na posição do próprio narrador como me identifiquei com ele. É claro, sei que são abordagens diferentes, mas pretendo dar mais uma chance ao filme qualquer dia (atualmente disponível no Prime Video).

Nota: 👻👻👻👻½

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