
Sem dúvida, a escritora argentina Mariana Enriquez é um dos grandes nomes da literatura sul-americana. Sua habilidade em trazer o horror para situações cotidianas, combinando elementos que vão do sobrenatural ao medo mundano, é um dos pontos altos de suas obras. Publicada originalmente em 2016, As coisas que perdemos no fogo é uma coletânea de 12 contos breves repletos de temas sociais, transitando entre o sci-fi e o horror cósmico.
Essa foi a segunda coletânea que li da autora (a primeira foi Os perigos de fumar na cama, que simplesmente amei) e sua terceira obra no geral (já li o romance Este é o mar e achei mediano). No conjunto, gostei bastante do livro, embora tenha achado alguns contos meio sem graça e ficado desapontada com o término abrupto de outros que tinham muito mais potencial. Segue a lista de contos e comentários breves:
O menino sujo – Um olhar sobre a miséria e a pobreza a partir do ponto de vista de uma mulher (provavelmente de classe média baixa) que vive em um bairro decadente por escolha própria. Todos os dias, ela observa um garotinho mendigo e sua mãe drogada na esquina de sua rua. Um bom exemplo de terror social.
A hospedaria – Duas adolescentes resolvem se vingar da antiga patroa do pai de uma delas por tê-lo demitido e exploram uma velha hospedaria. O conto equilibra um toque de ternura na conexão entre as meninas com o medo do desconhecido. Interessante.
Os anos intoxicados – Adolescentes, drogas e festas em meio à pobreza causada pelos anos de recessão econômica na Argentina. A reta final desse conto me deixou com uma sensação vertiginosa, lembrando Clímax, filme de Gaspar Noé lançado em 2018. Terror social com uma forte crítica política.
A casa de Adela – Duas crianças fazem amizade com Adela, uma menina com deficiência que tem apenas um braço. Longe de ser limitada por isso, Adela é ousada e destemida, liderando o trio em uma expedição a uma casa considerada assombrada. Meio gótico, meio sobrenatural, gostei bastante.
Pablito clavó un clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo – Cayetano Santos Godino, conhecido como Baixinho Orelhudo, foi um serial killer argentino nascido em 1896, que morreu na prisão em Ushuaia em 1944. Desde jovem, demonstrava sinais de psicopatia e acabou matando três crianças, além de ferir várias outras. Neste conto perturbador, ele assombra um guia turístico de Buenos Aires. Eu não conhecia a história desse assassino e, por se tratar de crimes contra crianças, fiquei bem impactada (coisas que acontecem depois que você se torna mãe/pai).
Teia de aranha – Em uma viagem de carro até Assunção (Paraguai), a narradora fica presa em uma estrada vazia com sua prima Natalia, uma jovem mística, e seu detestável marido, Juan Martín. Um bom conto, totalmente good for her.
Fim de curso – Marcela era a esquisita da escola, mas não apenas estranha—ela realmente fazia coisas absurdas, como relata a narradora. Adorei esse aqui, mas fica o alerta de gatilho para automutilação.
Era fascinante. Ela desmoronava em público sem pudores, e nós é que sentíamos vergonha.
Nada de carne sobre nós – Uma mulher encontra um crânio e o leva para casa, tornando-se completamente obcecada pelo objeto. Não gostei tanto, e fica aqui mais um alerta de gatilho, desta vez para transtornos alimentares.
O quintal do vizinho – Paula, uma mulher com depressão, atormentada por sua recente demissão, se muda com o namorado para uma casa que, embora não seja dos sonhos, lhe parece agradável. Até que, um dia, ela vê algo sinistro no quintal do vizinho. A protagonista representa o tropo da “mulher louca”, constantemente desacreditada. O desenvolvimento é interessante, mas não me agradou muito.
Sob a água negra – Uma promotora determinada a encarcerar policiais assassinos entra em uma favela onde já é conhecida, mas lá encontra respostas que preferiria nunca ter tido. A temática acabou me surpreendendo, mas achei bem fraco.
Verde vermelho alaranjado – Um casal mantém contato pela internet após o término do namoro. Ela, a narradora, parece uma garota comum. Ele, por outro lado, tornou-se um completo recluso. Mais um conto que não gostei.
As coisas que perdemos no fogo – Finalmente, depois de uma sequência de contos fracos, a coletânea fecha com chave de ouro. Aqui, as mulheres lidam com o mundo de uma forma peculiar—até explosiva, eu diria.
A edição lida foi publicada pela Intrínseca em 2017, com tradução de José Geraldo Couto.
Nota: 👻👻👻 ½








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