Harlan Coben é um autor com quem definitivamente vivo uma relação de amor e ódio. Se, por um lado, gosto de algumas de suas obras e adaptações, por outro, sempre há algo que me incomoda profundamente em sua escrita. Claro que, com Silêncio na Floresta, não foi diferente. Lançado originalmente em 2009, o enredo traz um crime ocorrido há duas décadas que volta para assombrar os envolvidos.

O adolescente Paul Copeland é um dos monitores de um acampamento de verão e, justamente no dia em que resolve dar uma escapada com sua namorada, Lucy, ocorre um crime que chocou a comunidade e terminou com o fechamento permanente do acampamento. Dois jovens foram encontrados mortos, e todas as evidências indicam que mais dois haviam sido assassinados, embora seus corpos nunca tenham sido encontrados. Um desses mortos é Camille, irmã mais velha de Paul.

Vinte anos se passam, e Paul se torna um respeitável promotor de um condado de Nova Jérsei. Ele se casou, teve uma filha e perdeu a esposa para o câncer. Sua mãe abandonou a família logo após o desaparecimento de Camille, e seu pai, um imigrante russo estabelecido nos Estados Unidos, morrera há alguns meses. Paul se encontra em um caso complicado de estupro, em que uma jovem negra acusa dois riquinhos de terem cometido o crime e, sendo o promotor, precisa fazer de tudo para conseguir a condenação dos criminosos. Só que algo do passado volta para assombrá-lo, e talvez ainda haja muito a se descobrir sobre os assassinatos do acampamento.

A morte é pura, destrutiva como uma bola de demolição. Ela bate, esmaga, e então as pessoas começam a se reconstruir. Mas não saber – essa dúvida, essa vaga ideia – torna a morte mais parecida com cupins ou outro tipo de germe implacável. Ela consome de dentro para fora. Não é possível impedir a deterioração. Não dá para se reconstruir porque aquela dúvida vai continuar te corroendo. Ainda corrói, acho.

Ok, então falaremos agora sobre o livro: a premissa é muito boa, a narrativa prende demais (li tudo em três dias, não seguidos) e posso dizer que gostei bastante. Mas, tratando-se de Coben, é claro que algumas coisas me incomodaram.

A primeira delas é sobre o caso em que Paul está trabalhando: ele luta com afinco para condenar os estupradores de uma jovem negra de 16 anos (stripper, mãe solteira, usuária ocasional de drogas, que às vezes se prostitui). O protagonista é, basicamente, um white savior: suas motivações são puramente altruístas, batendo de frente com gente poderosa (os pais dos jovens estupradores), capaz de ir até o inferno para salvar os filhos e acabar com a vida do promotor.

Isso realmente me incomodou. Creio que o autor poderia ter encontrado formas melhores de desenvolver a narrativa sem se apoiar no tropo do white savior.

Algumas outras coisas também ficaram a desejar, como o passado dos pais de Copeland, que vieram da União Soviética e de seu regime malvadão para encontrar uma vida de oportunidades nos “Istaites”, a terra da liberdade etc. e tal. Mas o autor é dos Estados Unidos, então é meio que esperado. Algumas pontas soltas, trechos desnecessários e personagens caricatos completam os pontos negativos que acabam deixando a leitura não tão boa quanto poderia.

Mas, se tem uma coisa que realmente me impressiona no autor, é a sua capacidade de dar nomes incrivelmente ridículos para seus personagens. Já começa pelo fato de ele ter uma série de livros com um protagonista chamado Myron Bolitar, nome que é piada recorrente nas histórias. Cingle Shaker, Mort Pubin são alguns exemplos, e a cereja do bolo é um advogado gay (bem caricato, por sinal) chamado Flair Hickory (minha mente cantava “Hickory Dickory Dock toda vez que eu lia esse nome, juro).

Curiosamente, os nomes e sobrenomes de outras etnias são bem menos complexos: Natasha, Manolo Santiago (!!!), Perez, Singh…

Claro que o livro tem pontos positivos. Como mencionei antes, a história é boa e prende bastante o leitor. Além do mais, o autor sabe quando e como usar diferentes vozes narrativas: a voz em primeira pessoa é reservada para o protagonista, enquanto acompanhamos as histórias de outros personagens em terceira pessoa.

Em resumo: é bom, mas com falhas. A versão brasileira é da Editora Arqueiro, publicada em 2022, com tradução de Ricardo Quintana.

Nota: 👻👻👻½

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